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terça-feira, 15 de setembro de 2015

9 Motivos para não apoiar o bem-estarismo


A teoria do bem-estar animal (bem-estarismo) defende que é moralmente aceitável usar animais para fins humanos, contanto que esses animais sejam tratados “de forma humanitária” e não haja sofrimento “desnecessário”. Dessa forma, de acordo com a lógica do bem-estarismo, o uso de animais deve ser regulamentado visando melhorar as condições as quais os animais para consumo estão submetidos.

Existe um debate interminável sobre a efetividade da abordagem bem-estarista versus abordagem abolicionista. Por um tempo, preferi não me aprofundar sobre essa questão, acreditando que meu tempo e a minha energia seriam melhor direcionados para outros assuntos. Mas após acontecimentos recentes, como o caso dos porcos do Rodoanel e a recente comemoração de alguns veganos a respeito das medidas adotadas pelo McDonald's, senti que isso precisa ser mais debatido. Portanto, vou compartilhar minhas reflexões sobre os erros da estratégia bem-estarista.

"McDonald's anuncia compromisso em comprar ovos de galinhas criadas soltas em galpões".
 Vitória monumental para os animais? 


Não é raro ouvir as pessoas dizendo que não concordam com a forma a qual os animais são tratados atualmente em fazendas industriais e abatedouros, mas acreditam que comprar carnes, ovos e laticínios orgânicos de pequenos produtores seja a saída para esse problema, já que dessa forma, iriam financiar uma melhoria na vida desses animais. Tem sempre alguém dizendo que conhece um sítio onde os animais vivem bem, são criados soltos e felizes...

Existem também algumas pessoas que acreditam em medidas bem-estaristas como o aumento de baias de porcas ou a criação de galinhas poedeiras fora de jaulas, como um avanço rumo à abolição da exploração animal.

Abaixo eu explico os motivos pelos quais essa "solução" proposta pelos bem-estaristas não só é ilusória e inviável, como é contraproducente e anti-ética.

O perigo de rótulos como "humanamente abatido" e "criado livres de gaiolas" é que se perpetua a ideia de que há uma maneira certa de explorar e matar animais. 

1. Cerca de 50% da carne consumida no Brasil são de matadouros clandestinos.


A fiscalização no Brasil em criadouros de animais é tão precária, que mesmo se uma empresa ou fazenda fiscalizada alegar que os animais são bem tratados, qual é a garantia? Quem está fiscalizando? E o mais importante: quem se importa? No final de suas vidas, os animais são executados. Não existe aposentadoria nem morte natural de vacas, porcos e galinhas exploradas para produção de carne, laticínios e ovos.

Mesmo na mais bucólica e simpática fazenda fiscalizada, ocorre a castração de porcos sem anestesia, debicagem de aves, marcação com ferro quente, corte de chifres, separação de filhotes de vacas e transporte em condições deploráveis até o abatedouro.



2. A definição de maus tratos é vaga.


O que é maus tratos? Quando o assunto é maus tratos de animais, cada pessoa tem uma definição própria de maus tratos. Por exemplo, nós veganos consideramos maus tratos deixar um cão amarrado na coleira durante toda a sua vida, mesmo que tenha acesso à comida e água. Sabemos que cães são seres curiosos, possuem interesses em conhecer novos lugares, necessitam andar, cheirar, correr, interagir e brincar. Para várias outras pessoas e para a legislação brasileira, se o cão tem água, comida, um teto, atendimento veterinário de vez em quando e não sofre tortura física (espancamento), pouco importa se ele fica preso o dia todo.

Se com cães e gatos já é assim, em relação aos animais criados para consumo humano as leis de proteção animal não existem no Brasil, por isso você pode fazer praticamente o que quiser com um animal e ainda assim estará dentro das leis. Por exemplo, pegue um porco, castre-o sem anestesia, arranque os dentes no alicate, queime-o com ferro quente, mantenha-o confinado por toda a vida e depois mate-o com uma facada no quintal da sua casa e faça uma feijoada caseira pra você e seus amigos. Você estará 100% de acordo com a lei brasileira.

Separar bezerros das mães é maus tratos? Manter galinhas soltas mas matar todos os galos é maus tratos? Transportar animais por distâncias enormes em caminhões com condições insalubres até o matadouro é considerado mau trato? Pescar peixes com anzol ou redes e deixá-los morrer sufocados é considerado tortura? Uns dirão que sim, vários dirão que não. A definição é pessoal e vaga, por isso uma empresa pode perfeitamente colocar selos nos seus produtos dizendo que seus animais são bem tratados. São bem tratados de acordo com qual definição de mau trato? De acordo com a definição que a própria empresa tem do que é ou não mau trato!! Mas certamente um selo de “nossos animais são bem tratados” ou "certified humane" acarreta num considerável aumento das vendas!

Isso é maus tratos? A legislação diz que não, quem trabalha com isso diz que não e as empresas dizem que não. Fonte: O Holocausto Animal


Outro exemplo evidente de como a definição de maus tratos é vaga. Alguém aqui curte ou defende sexo com animais? Imagino (e espero) que não! Todos repudiamos a violência com que animais são estuprados. Mas quando se a finalidade for a produção de laticínios... aí tudo bem! Não é mau trato!

 

3. A relação explorador x explorado nunca é de respeito.


O objetivo do explorador de animais é lucro. Sempre e unicamente lucro. Não tem essa de "na minha fazendinha todos são felizes e bem tratados e esse é o meu objetivo". O lance é dinheiro e o que fazer pra ganhar ainda mais dinheiro às custas da exploração dos animais. Não existe relação amigável e de respeito entre senhor e escravo. Quando os interesses do explorador e do explorado entrarem em conflito, qual irá prevalecer? A relação explorador/explorado JAMAIS será de igualdade, respeito, amizade.

Pra piorar, é uma característica bastante comum entre humanos sentir prazer em abusar de seres (humanos ou não humanos) em situação de inferioridade. Relação de dominação implica necessariamente em violência. Isso é científico. Dessa forma, nenhuma fazenda (empresa) que lide com a exploração animal tem como garantir que os animais não estão sendo agredidos, já que é comum pessoas se tornarem agressoras por estarem numa posição de superioridade que as permitam agredir.

Existe o clássico experimento de aprisionamento de Stanford (virou até um filme: "Das Experiment"), onde pessoas comuns foram colocadas umas na situação de guardas e outras na de prisioneiros. Os “guardas”, por estarem numa situação de superioridade e controle, começaram a praticar atos absurdamente cruéis. O experimento, idealizado para durar semanas, teve que ser abortado em 6 dias, devido à crescente brutalidade dos “guardas”, que eram pessoas até então normais, sem sinais de psicopatia.

No Brasil, a bizarra prática de zoofilia nas fazendas é largamente difundida. Frequentemente vemos homem admitindo publicamente que já estuprou animais na fazenda. E depois dizem “mas tem uma fazendinha que os animais são bem tratados e só compro de lá...”. Então tá.

Conclusão: enquanto a relação humano-animal não humano for de dominação, exploração e interesse, é impossível que não haja nenhuma crueldade envolvida.


4. Não defendemos bem-estarismo quando é o ser humano que está sendo abusado ou explorado.


Segundo a lógica bem-estarista, seria possível defender violência “humanitária” com humanos? Por exemplo, alguém defenderia estupro contanto que a mulher esteja sedada? Jamais.

Como dito pelo ativista Gary Yourofsky, alguém aceitaria um estupro bem-estarista? Imaginem um sujeito educado, convidando uma mulher para ir num restaurante com ele. Ambos vão felizes a um ótimo restaurante italiano, conversam, se divertem... aí o sujeito coloca uma droga na bebida da mulher. Ela apaga. Quando acorda no dia seguinte, percebe que foi estuprada. Mas ela não sentiu nada, estava dormindo. E foi muito bem tratada antes do estupro. Que tal? Assim pode então? Não, né?

Mas quando se trata de um animal, curiosamente, está tudo bem nesse caso. Contanto que a teoria bem-estarista não nos seja aplicada, está ok. O bem-estarismo é bastante tentador para justificar nosso atos quando nós somos os exploradores, mas é imediatamente repudiado quando nós somos as vítimas. Bem-estarismo para manter a nossa posição de explorador? Ótimo! Bem-estarismo para nos manter na posição de vítima? Nunca!

As vacas leiteiras de pequenas fazendas também sofrem uma forma de violação, seja para que seu leite seja sugado diariamente contra a vontade delas, seja para serem inseminadas artificialmente. Após o nascimento do bezerro, ocorre mais uma violência: a separação da mãe e filhote recém-nascido, causando grande sofrimento para ambos.


5. Reduzir sofrimento ainda é sofrimento.


Se alguém me perguntasse se eu gostaria de tomar 3 tapas na cara ao invés de 10, é claro que eu responderia que sim. Mas o fato é que eu não gostaria de tomar nenhum tapa. Se eu prefiro 3 ao invés de 10, não significa que deveríamos sair por aí propondo às pessoas para que deem apenas 3 tapas nos outros.

Há algum tempo, Paulo Maluf pediu para que os estupradores apenas estuprassem, mas não matassem mulheres (Fonte). Essa lógica usada pelo Maluf é também muito usada pelos bem-estaristas: reduzir o dano é uma grande vantagem.

No entanto, isso foi considerado tão inadmissível que esse absurdo proferido pelo político virou motivo de repúdio naquela época. Quando a vítima é um humano, pelo visto só reduzir danos não cola.

Dessa forma, aumentar jaulas de porcas e galinhas poedeiras continua causando sofrimento e sendo uma forma de exploração, mesmo que seja menos desagradável. Regulamentar o uso de cavalos em carroças não irá livrar a vida abominável dos cavalos, talvez vá melhorar em um ou outro aspecto, mas o saldo final será negativo, afinal livrará a consciência de quem contrata o serviço dos carroceiros, fazendo com que mais cavalos sejam explorados, ao invés de se incentivar o uso de cavalos de lata ou caçambas.



6. Na prática, ninguém consome apenas produtos de criação extensiva e orgânica 100% do tempo.


Quem alega ser contra a forma como os animais são criados, geralmente não se importa com a procedência de seu alimento o tempo todo. Isso significaria se alimentar como um vegano quando não houver acesso ou garantia de procedência "humanitária" de laticínios, ovos e carnes. Se o sujeito vai a um bar ou restaurante, quem garante que aquela carne servida é oriunda de pecuária "sustentável e humanitária" ou os ovos são provenientes de galinhas criadas soltas? Nesse caso de incerteza, ele estará disposto a pedir salada, batata frita e macarrão sem ovos ao sugo ao invés da picanha? Abrirá mão de presunto e salame da Sadia?

Se a pessoa defender de verdade o consumo bem-estarista, acabará sendo vegano 90%  do tempo, já que o acesso aos produtos oriundos desse sistema não são muito acessíveis. E se já é vegano 90% do tempo, pode muito bem ser vegano 100% das vezes.

Bem-estarismo não passa de argumento para defender a exploração animal. Um argumento tão vagabundo que nem quem o defende o segue na vida real. 


7. A criação extensiva e orgânica de animais não atenderia a população global.


O bem-estar animal passa pela liberdade dos animais. Tendo isso em vista, o mundo não comportaria criações extensivas de animais para uma mesma quantidade de consumo atual. Seriam necessários vários planetas Terra caso todos os animais mantidos confinados hoje fossem criados livres em fazendas.

O bem-estarismo não passa de argumento para ser usado em discussão. Na prática, nem viável ele é.


8. Animais machos não tem vez em fazendas leiteiras ou em granjas. 


O destino de machos e de animais considerados “velhos” (leia-se: menos produtivos) em qualquer fazenda é apenas um: o abatedouro. Vacas precisam se reproduzir para dar leite. Galinhas precisam se reproduzir para dar continuidade à exploração. Os machos que nascem não tem vez porque não são financeiramente interessantes (bezerros de vacas leiteiras e pintinhos machos de galinhas poedeiras não são geneticamente gordos como os de corte) e são enviados para o abatedouro (ou para a panela) pouco depois que nascem.

Tanto na fazendinha “feliz” quanto nas criações industriais, o objetivo é o mesmo: lucro. E quando a produtividade do animal começa a cair devido à idade, eles são assassinados.

Não existe SPA grátis para machos e animais menos produtivos nessas fazendas.


9. A melhoria das condições dos animais em indústrias aumenta a produtividade.


Esse é um efeito colateral grave do bem-estarismo: alivia a consciência de quem explora animais, aumentando o consumo e, consequentemente, a exploração dos animais.

Se o bem-estarismo não impede a exploração de animais, por que grupos que dizem apoiar a causa animal defendem o bem-estarismo e não a abolição da escravidão animal (veganismo)? Simples: porque esses grupos na verdade são empresas que sobrevivem às custas de doações e de associados, e defender causas impopulares como "parem de explorar animais" ou "se tornem veganos" pode acarretar em dificuldades de conseguir associados e, consequentemente, dinheiro. Essas empresas, digo, grupos bem-estaristas, preferem apoiar ações que não acarretam em grandes mudanças na vida das pessoas. Para os bem-estaristas, não é preciso abrir mão de carnes, laticínios, ovos, couro, cosméticos, etc., basta comprar carne no supermercado X ao invés do Y, cobrar que a sua rede de fast food predileta se comprometa com o bem-estarismo (como o McDonalds fez) e, no mais, é vida que segue. Já ser vegano retira o sujeito da tão querida zona de conforto, frequentemente exigindo mudanças profundas no dia a dia... e nada é mais impopular que isso. O público se sente "compassivo" e descarta as obrigações morais consumindo produtos de animais "felizes".

No meu entendimento, as pessoas podem sim entender perfeitamente o significado de veganismo. Os argumentos para o veganismo como uma obrigação moral são perfeitamente inteligíveis para quem se preocupa o suficiente para ouvir. A maioria das pessoas entendem a ideia de que é errado infligir sofrimento aos animais por razões de prazer ou diversão, ou conveniência, mesmo que de outra forma não aceitam o igualitarismo de uma abordagem dos direitos animais. Por essa razão, não vejo a necessidade de usar abordagens bem-estaristas, pisar em ovos para falar sobre veganismo e propor pequenos passos rumo à abolição.

O bem-estarimo promove a ideia de que a forma como usamos os animais é errada, quando na realidade deveríamos promover que usar animais é errado, independente da forma como são tratados. Se existe uma forma certa de explorar e matar animais, pra que serve o veganismo?

Gary Francione diz no livro de introdução aos direitos animais:
"Se o bem-estar animal tiver algum efeito, é o de tender a facilitar a exploração dos animais, porque faz as pessoas se sentirem melhor quanto a usá-los."   
 [...]
 Tente conversar sobre veganismo com ao menos uma pessoa por dia. Se, no decorrer de um ano, só algumas dessas pessoas se tornarem veganas, você terá reduzido mais sofrimento do que gastando seu tempo trabalhando por leis que vão dar 2cm de espaço extra a uma galinha numa gaiola de bateria."

Nota: Existem fazendas sem crueldade animal: os santuários. Ex: Santuário das Fadas e Rancho dos Gnomos.