Estratégia x idealismo vegano

Como já disse o Tobias Leenart do Vegan Strategist, "às vezes eu tenho a impressão que o veganismo foi inventado quando alguém queria criar o menor grupo do mundo. Parece que algumas pessoas querem desesperadamente afastar outros, em várias formas possíveis, para manter o movimento vegano sempre pequeno."




Em termos gerais, todo vegano sabe o que é veganismo: uma luta pelos animais, pela vida deles, por respeito a eles. No entanto, quando tratamos de aspectos mais específicos, quando nos aprofundamos nos detalhes e nas abordagens e estratégias, algumas divergências surgem entre os veganos. Não há uma definição única do que é veganismo. Por exemplo, alguns veganos defendem o boicote de produtos que não contém derivados de animais, nem foram testados, mas que são produzidos por empresas que não são 100% veganas (ou que testam em animais). Já outros veganos acham que esse tipo de boicote é contraproducente. Não há consenso.

Recentemente tenho visto na comunidade vegana uma discussão sobre a melhor estratégia para alcançar o maior número de pessoas a se tornarem veganas. De um lado, existe a ideia de que o mundo não é vegano e está longe de se tornar vegano. Por isso, acreditam que é melhor focar em promover transformações, ainda que não sejam 100% coerentes com a moral abolicionista, a fim de atrair o maior número de não veganos para a causa. Do outro lado, veganos focam em educar pessoas de acordo com a ideologia abolicionista menos pragmática e mais rigorosa, ou seja, jamais incentivam as pessoas a consumir produtos sem ingredientes de origem animal de empresas que realizam testes em animais, nem práticas bem estaristas que não libertam os animais.

Eu me considero vegana abolicionista e terminantemente contra o bem estarismo, mas acredito que às vezes é melhor abrir mão do que eu considero o caminho ideal, em prol de um bem maior. Como exemplo do hambúrguer da Impossible Foods que precisou passar por testes em ratos para ser aprovado para o FDA. É lamentável, mas pelo que eu entendi, esse hambúrguer não foi feito para veganos especificamente, e sim para quem quem quer substituir o de carne por um vegetal. Se ele for mesmo revolucionário e salvar milhares de vidas de vacas e contribuir para a preservação do meio ambiente, o saldo será positivo. No entanto, eu vi vários veganos condenando a empresa.

Sempre que se descobre que alguém (ou uma ong) faz ou acredita em algo considerado menos ortodoxo, alguns veganos rapidamente apontam o dedo e dizem que a pessoa x ou y é claramente não vegana. Se eles possuíssem os direitos autorais do termo "vegan" e "veganismo", iriam proibir para sempre pessoas não ortodoxas de se chamarem veganas novamente. Às vezes se esquecem que o veganismo não é o objetivo final, e sim uma ferramenta para reduzir significativamente o sofrimento dos animais. O objetivo é atrairmos mais e mais pessoas e, com isso, salvarmos os animais, ou criarmos um clube fechado onde os membros desse grupo podem bater no peito e dizer "sou vegano!" enquanto zilhares de animais são mortos por todas as pessoas que não se interessam em participar desse clube repleto de regras impraticáveis?

Se quisermos salvar mais e mais animais, precisamos atrair mais e mais pessoas. E como faremos isso? Problematizando cada leite vegetal que surge no mercado? Problematizando cada carne vegetal/sintética que aparece? As pessoas amam carne e laticínios. Aí quando surgem opções de carnes e leites veganos, o que fazemos? Dizemos que não vale porque a empresa X pertence à empresa Y que tem 2% de ações da empresa Z que patrocina rodeios. É assim que atrairemos pessoas e salvaremos os animais?



A maioria dos veganos que eu conheço tenta fazer o máximo que consegue pelos animais, mas tenho certeza de que ninguém vive em uma bolha vegana e, por mais que tentem, acabam uma hora ou outra, tendo que se sujeitar a consumir algo proveniente da exploração animal. Tomar vacinas e remédios que são testados em animais, usar pílula anticoncepcional e alimentar animais de estimação com carne não nos torna menos veganos. Não há um consenso de onde traçar um limite de onde termina o veganismo. Então por que julgar alguém que, em alguns aspectos da vida, não segue e nem promove o veganismo de forma ortodoxa, mas está tentando o seu máximo? 

A gente poderia, é claro, extremar tudo e colocar na lista inatingível de regras do veganismo: nos tornarmos anti-capitalistas, anti-grandes indústrias, virarmos hippies anti-consumistas vivendo em comunidades auto-sustentáveis e fazer tudo em casa. Mas então não atrairemos a massa e a gigantesca maioria das pessoas nunca mudaria seus hábitos porque assim não seria uma maneira realista de viver. Quando eu penso o que um não-vegano acharia se entrasse num grupo vegano de discussões, percebo o quanto ele pode se afastar ao invés de ser atraído, dado o número de regras e sugestões que são desinteressantes e difíceis de serem colocadas em prática por um número muito grande de pessoas.

Não é justo exigir que todos tenham hábitos de consumo tão extremos, já que além de contraproducente para o veganismo (focar em seguir rigorosamente uma lista interminável de regras ao invés de focar nos objetivos comuns não me parece uma boa tática), cada um sabe de suas dificuldades. Por mais que parece ser fácil para você, pode não ser fácil para todo mundo. Dessa forma, não é melhor tentar tornar o veganismo mais viável, mesmo que ele não seja o mais "perfeito"?

Acredito que as pessoas, quando confrontadas com um veganismo tão cheio de regras, podem se sentir desmotivadas. A natureza do ser humano é muito complexa, mas as pessoas tendem a preferir a comodidade da zona de conforto do que mudar drasticamente. As pessoas se sentem mais inclinadas a fazer pequenas mudanças na vida, independente se a causa é pelos animais. Trocar salsicha de porco por salsicha de soja, e manter o tão querido cachorro quente do fim da noite é algo bastante atrativo. Poder trocar a caixinha de leite de vaca por outra caixinha idêntica de leite vegetal, que pode ser comprada no mesmo supermercado, irá atrair muito mais gente e salvar muito mais animais do que dizer para as pessoas perderem algumas horas do dia fazendo leite vegetal em casa, ou trocando o querido leite por nada, por exemplo. As pessoas querem manter a vida que sempre tiveram. "Ah, mas eu consegui mudar e hoje faço tudo diferente". Ótimo, mas argumento anedótico não vale se quisermos salvar os animais. O mundo tem 7 bilhões de pessoas e o veganismo tem que ser atrativo para todas elas. E as pessoas não gostam de mudanças drásticas. As 7 bilhões de pessoas não querem (ou podem) trocar o amado cachorro quente por pão com alface ou pela salsicha de uma empresa 100% vegana que só pode ser comprada num armazém da rua Augusta. Quanto menos drástica e mais fácil for a mudança para o veganismo, mais gente se sentirá compelida a virar vegana.

Eu entendo que nós veganos de longa data às vezes sentimos raiva do mundo, gostaríamos desesperadamente que a mudança ocorresse ontem, mas infelizmente não acontece assim com todo mundo. Algumas pessoas podem levar anos para "maturar" uma ideia e colocá-la em prática. Não vamos fazer o veganismo ainda mais difícil do que é (porque sim, para a maioria das pessoas é). Quando as pessoas quiserem dar o primeiro passo, vamos recebê-las em vez de afastá-las com muitas regras. Avalie o que você e os outros fazem, não pela pergunta: "é vegan?" e sim: "isso vai diminuir o sofrimento dos animais?", "o boicote faz sentido e pressiona a empresa a mudar ou é apenas simbólico/purista para tranquilizar nossa consciência?".



Número de animais mortos para alimentação e outros motivos (por ano no Reino Unido). Na ordem: Peixe | Frango | Gado, Carneiro, Porcos | Vida selvagem morta por gatos | Pesquisa. 
Fonte

10 comentários:

  1. Sua reflexão é importante e concordo, tenho até evitado entrar em discussões com veganos devido alguns extremismos, já sou vegana a três anos e sinto que o movimento precisa se articular melhor para ganhar força, qualidade e quantidade.

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    1. Exatamente, Reegisk! Essas discussões também me deixam desanimada com o movimento vegano. Estamos lidando com mudanças de comportamento e não é a hora de focar em extremismos.

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  2. Que texto maravilhoso. Não sou vegetariana, mas não uso comestíveis testados em animais e sempre tento alternativas para não comer carne. Infelizmente as alternativas veganas de comida e cosméticos são bem mais caras e isso dificulta o acesso por mais pessoas.
    Trabalhei em um lugar em que havia um "coletivo vegetariano" como eles se chamavam. No boletim interno da empresa eles fizeram uma postagem em que diziam que não adiantava doar dinheiro pra ONG, reciclar lixo e outras coisas e continuar comendo carne. Era uma visão tão tacanha que só criou inimizade com o grupo. O modelo de convencimento não deve ser julgar e desmerecer as pessoas.

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  3. Olá Eliana,

    Há coisas no teu texto que concordo e que discordo. Vou dizer com o que discordo e porquê; sei que contigo conseguirei um diálogo civilizado e saudável, contrariamente ao que se passa nas redes sociais.

    Como vegana abolicionista, sou contra consumir produtos de empresas que testam em animais, mesmo que tenham produtos sem ingredientes de origem animal. Simplesmente, se dermos uma brecha para essas empresas, as pessoas considerarão correcto comprar coisas da L'Oréal, Herbal, etc, por estas terem produtos de higiene e beleza que não têm nada de origem animal. Nós, como veganos, ficamos tristes por vermos os outros a pensar somente com o estômago: pois bem, para mim, comprar produtos alimentares de empresas que testam em animais também é pensar exclusivamente na barriga. Existem muitas outras marcas, incluindo brancas (que são baratas) que não testam e não têm nada de origem animal. Ficar a militar por uma maionese sem ovos da Unilever, por exemplo, não cabe na minha cabeça; primeiro, porque não é um alimento essencial e segundo porque dá para fazer em casa, sem contar que fica mais barato (e é rápido, ao contrário dos leites vegetais). Com isto quero dizer que existem milhares de soluções práticas para evitar dar dinheiro a empresas que testam em animais, sendo algumas dessas soluções mais económicas até.

    Eu fui uma das que critiquei a Impossible Foods porque não faz sentido nenhum, em pleno século XXI, testarem ingredientes e substâncias alimentares em animais. Além disso mentiram, anunciando que foram obrigados pela FDA, quando a FDA não exige testes em animais. Empresas que precisam de inventar para parecerem vítimas não merecem qualquer crédito seja do que for. Tudo bem que, com isto, estão a salvar animais, mas podiam fazê-lo de forma honesta, transparente e no seu todo. Assim não passa de mais uma empresa utilitarista que quer aproveitar-se dos direitos dos animais para lucrar.

    Escreveste que o hambúrguer da Impossible Foods não foi feito para os veganos e isso é óbvio: mas vê que essas empresas que continuam a explorar animais fazem produtos revolucionários precisamente para atraírem também o público vegano. Não é coincidência várias empresas estarem a lançar alternativas vegetais numa época em que o veganismo está a crescer. Pessoalmente, fico muito triste que muitos veganos apoiem este tipo de empresas, já que estas estão pouco a borrifar-se para os animais e querem é lucrar. Por essa razão é que também não categorizo como cruelty-free empresas ligadas a outras que testam em animais, como a The Body Shop/L'Oréal: a primeira não passa de um isco para atrair pessoas que são contra os testes em animais e a segunda acaba por aproveitar-se disso enquanto continua a inflamar os olhos dos coelhos.

    Defendo a prática abolicionista no meu blogue e, até agora, ninguém pareceu desconfortável com isso: quem tem dúvidas faz-me perguntas e eu preocupo-me de responder o mais completo possível. Penso que a moral abolicionista do veganismo é mal vista porque muitas pessoas e muitas páginas não sabem estabelecer uma conversa e preferem atacar ou comportar-se arrogantemente do que propriamente ajudar. O veganismo abolicionista é muito simples e pode ser praticado por todos: basta mostrar como e estarmos disponíveis para acolher todas as perguntas e dilemas que nos chegam. Precisamente por isso sou contra regras, porque envolvem o veganismo abolicionista numa aura militar: não vejo o abolicionismo como um conjunto de regras e sim como uma esfera mais justa para os animais - e é isso que deve ser transmitido.

    Em suma, respondendo ao que escreveste no fim em negrito: acredito piamente que o boicote a empresas que testam em animais faz bastante sentido e que com esse boicote rejeitamos financiar o sofrimento de milhares de animais que são explorados e mortos nesses testes. Não vejo o boicote como um símbolo purista e sim como a rejeição de qualquer acção que faça mal aos animais.

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    1. Olá, Mel!
      Eu entendo o seu ponto porque pensava assim também. Te admiro muito e agradeço a sua mensagem!

      Eu sou totalmente a favor de boicotar empresas que testam cosméticos e produtos de higiene em animais, mas quando se trata de comida, sou um pouco menos rigorosa quanto ao boicote. Por exemplo: recentemente lançaram um leite vegetal cuja empresa é produtora de laticínios. Vi esse leite em supermercados populares e muita gente disse que boicotaria porque não gostariam de financiar pecuaristas. Eu não apoio esse tipo de boicote porque as opções de leites vegetais ainda deixam a desejar por aqui. Outro exemplo: uma amiga que não é vegana disse que iria deixar de consumir leite de vaca e passaria a consumir leite de soja Ades (que pertence à Unilever), porque ela gostou muito do sabor dele. Ao invés de explicar toda a polêmica em relação à marca, a incentivei. Se eu tivesse dito a ela que ao invés de comprar dele, fizesse o leite vegetal em casa, ou comprasse de uma marca 100% vegana (que provavelmente é mais cara e mais difícil de comprar) ela provavelmente iria ficar confusa com tanta restrição e informação que talvez pudesse voltar a comprar leite de vaca. No final das contas, eu prefiro que alguém consuma de marcas que não testam em animais (mesmo que a empresa mãe teste) do que consumir produtos de origem animal. Coloquei o gráfico no final para mostrar que devemos focar mais em alimentos de origem animal do que alimentos vegetais de marcas que testam em animais, já que a diferença entre o número de animais que sofre para virar comida vs em testes é gritante.

      Ninguém precisa tomar leite de vaca ou até mesmo o leite vegetal para ser saudável, no entanto, somos acostumados desde crianças a tomar leite de caixinha. Ao invés de problematizar esse costume, eu ainda acho que deveríamos mostrar os substitutos (tanto os industrializados como os feito em casa). O mesmo vale para o ovo em pó vegetal, hambúrguer vegetal etc.

      Infelizmente essas grandes holdings detém empresas que encontramos em supermercados convencionais e cidades pequenas. E por esse motivo são as que geram grandes mudanças. E como toda empresa grande, só querem saber de lucro. Realmente nenhuma dessas empresas liga para os animais. Mas para mim, contanto que animais estejam sendo salvos nesse processo, não me importo com a intenção dessas empresas.

      Não sei como funcionam as leis de aprovação de novas substâncias nos EUA. Li na página da Impossible que o FDA exigia testes em animais, mas li também que eram desnecessários.

      E quanto à The Body Shop, boicotar ou não, na minha opinião, é uma opção pessoal, já que a empresa não testa em animais, mesmo pertencendo à L'Oreal. Eu não compro desse tipo de empresa porque tenho acesso a outras marcas, mas jamais diria que alguém está errado em comprar dela.

      E sim, o veganismo abolicionista para mim é absolutamente compreensível, porém, ainda acho que às vezes a nossa abordagem poderia ser menos extrema e mais adaptável a quem queremos atingir. Algumas pessoas amam laticínios, outras não se importam. E existem pessoas que deixam de querer ser veganas porque acham que o veganismo é muito difícil de ser seguido. Eu não quero dizer que deveríamos defender o bem estarismo. Nosso foco hoje deveria ser facilitar a vinda e a permanência de pessoas para o veganismo.

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  4. Eliana, já comprei inúmeras coisas que tu indicou: batons, óleos, xampus, máscaras capilares. Te descobri quando virei vegana, há uns quatro anos (depois de mais de dez como vegetariana). Toda vez que ficava triste por não poder comprar determinados produtos, era só chegar aqui para ver as inúmeras alternativas. Tu não tem noção de como amo o teu blog e de como ele já me ajudou! Estou há muito tempo querendo te dizer isso. :)


    Quanto ao conteúdo do teu post, digo que concordo com tudo. Precisamos ser pragmáticos! As coisas não vão mudar radicalmente, então é melhor termos pequenas conquistas em vez de conquista nenhuma. Animais estão sofrendo neste exato momento e precisamos fazer o que podemos agora.

    Isso se aplica à esquerda e ao feminismo tão bem neste momento também... É um querendo se mostrar mais desconstruído do que o outro. O que acontece? A gente perde o foco do real problema a ser combatido.


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    1. Obrigada pela confiança, Adriana! Fico muito feliz que o blog tenha sido útil! :)

      Sim, os movimentos sociais estão muito parecidos com o movimento vegano, muita discussão desnecessária e pouco foco. Mas tenho esperança que as pessoas se deem conta disso e tentem mudar.

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  5. Eliana, adorei o texto! O único motivo de eu não ter virado vegana há muitos anos atrás foi por ter me deparado com um pessoal muito radical, que me afastou do movimento ao invés de verem que eu tinha super interesse no assunto, e me mostrar o veganismo.Vejo exatamente isso: parece que alguns querem ficar fechados numa bolha, bater no peito e dizer "sou vegan" e foda-se os animais. Hj, vegana há 6 meses, se alguém me diz que está reduzindo a carne, faço a maior festa, mando receitas, instagrans, documentários.. ao invés de enfiar o dedo na cara deles e dizer "menos não adianta"! Como fizeram comigo lá atrás. Adorei seu post!!!!!!!!

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    1. Obrigada pela mensagem!
      Eu idem! Demorei 8 anos para virar vegana e o radicalismo me afastou na época.
      Temos que tomar cuidado para não sermos teimosos em aceitar a realidade da natureza humana já que estamos lidando com mudanças de comportamento.

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  6. Eliana, muito obrigada por esse texto. De verdade. Assim que puder (tiver no pc) volto pra fazer comentário melhor, mas já queria agradecer por esse texto. Eu concordo demais. Muitos veganos estão, muitas vezes, presos na sua bolha classe média/média alta e não entendem a realidade de outras, principalmente das mais baixas (e também do interior do país - meu caso são as duas coisas). Enfim, assim que der, volto e comento. 😘

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